Uma eventual era pós-Yahoo! e o futuro da Internet

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A Internet acaba de ser sacudida pela oferta hostil da Microsoft feita sexta-feira. E não pensem que foi pelo valor do possível negócio ou pela possibilidade de concentração de mercado. Foi sim pela grande gama de possibilidades, que podem surgir no futuro próximo ou a médio prazo.
Quanto ao valor, não há que se negar que foi elevado, mas no mundo dos negócios globais há outros negócios muito maiores. Senão, vejamos:

  1. a recente compra do Banco ABN, por exemplo, custou USD$ 89 bilhões (o dobro da oferta da MS);
  2. a união entre a Exxon e a Mobil gerou uma empresa de USD$ 380 bilhões; e
  3. na área de tecnologia da informação, somente para dar um exemplo, a AOL comprou a TimeWarner, em 2001, por USD$ 103,5 bilhões.

Assim, esta, se ocorrer, não terá sido uma das maiores.
Outro problema a ser enfrentado é o medo, que todos possuem, de uma empresa do porte da Microsoft comprar uma concorrente (a segunda do mercado). Afinal, esta concentração não seria perniciosa à competição e à inovação, em função do duopólio, que, inevitavelmente, surgiria?
Aqui temos algumas questões a serem enfrentadas:


  1. um processo de consolidação encabeçado por uma empresa do porte da Microsoft é sempre algo que dá medo, em função do poder econômico, o que não significa garantias de sucesso ou destruição do mercado;
  2. a MS é líder absoluta nos mercados de TI relativos a PC’s e games (sistemas operacionais e aplicativos de produtividade), mas perde em todos os outros mercados (bancos de dados, ERP, GED etc) e, principalmente, leva um banho em aplicações de Internet;
  3. o mercado está seguindo hoje para o perigoso caminho do monopólio orgânico na área de buscas na Internet, liderado pela Google, o que não interessa aos consumidores, aos publicitários, à MS, à Yahoo! e nem mesmo à Google, que correria o risco de ser dividida compulsoriamente pelos órgãos de defesa da concorrência;
  4. ninguém gostaria de ver a Yahoo! ser incorporada por outrem, mas este negócio de buscas de Internet é para empresas gigantes, que consomem fábulas em investimentos, talvez ainda haja espaço no mercado norte-americano para três empresas deste porte, mas a Yahoo! precisa rapidamente de uma grande injeção de capital, para poder continuar competindo;
  5. a consequência disto seria que a Yahoo! tenderia a minguar com o tempo, porque a Google continuaria a crescer e a MS continuaria a manter a sua divisão de Internet com os seus ganhos nas áreas superavitárias; e
  6. ela tem que ser vendida enquanto vale muito.

Mas uma eventual união estaria inexoravelmente fadada ao sucesso? Tenho para mim que não. Ao contrário, se feita da forma errada, poderia redundar em um profundo e total fracasso. Ela dependeria de alguns pressupostos, quais sejam:

  1. além de investir USD$ 44,6 bilhões na compra, teria a MS que investir muitos outros bilhões (talvez dezenas) na integração das plataformas e na ampliação da infraestrutura;
  2. a MS deveria se tornar uma empresa com 5 divisões com focos totalmente diversos e administrações interdependentes, mas com liberdade decisória (sistemas operacionais e aplicativos para PC’s, games, aplicativos de gerenciamento empresarial, hardware e Internet);
  3. a divisão de Internet deveria ser colocada sob a direção Jerry Yang e David Filo, como forma de manter a inovação neste setor na empresa;
  4. no processo de integração das plataformas, ambas as empresas deveriam abandonar a visão de portal, que é um conceito da era da Internet 1.0 e adotarem a visão da busca como o principal (Internet 2.0);
  5. melhorar as atividades mais sociais;
  6. aproveitar os aplicativos Yahoo! para celulares, integrando-os ao Windows Mobile, para inserir as plataformas, já integradas em um contexto mais móvel;
  7. investir em vídeo on-line;
  8. facilitar o acesso da plataforma Office Live aos usuários, para acirrar a concorrência com os produtos de escritórios Google etc.

Caso a união venha a ocorrer, e se mostre vitoriosa, as consequências serão, entre outras:

  1. crescimento da participação da MS no mercado mundial de buscas;
  2. acirramento da competição com a Google, com o necessário aumento da inovação por parte de ambas as empresas, o que será bom para os consumidores e publicitários;
  3. provável início de um processo de consolidação no mercado de Internet, já com vistas no aumento das verbas publicitárias previstas para os próximos anos; e
  4. a provável redução da participação de mercado da Ask e a retenção da Baidu no mercado Chinês (talvez até com redução de participação).

Caso a união venha a ocorrer, mas se mostre um fracasso administrativo ou de vendas, serão estas as consequências, entre outras:

  1. crescimento da participação da MS no mercado mundial de buscas; em um primeiro momento, mas queda em um segundo momento;
  2. crescimento da participação da Google neste mercado, criando um monopólio, com prejuízos para a inovação e para a concorrência;
  3. impossibilidade de surgimento de novas empresas no ramo, por falta de capital;
  4. possibilidade, ainda que remota, de crescimento da participação da Ask;
  5. provável crescimento vertiginoso da Baidu, que sairia de sua clausura chinesa e tomaria os espaços no ocidente, provavelmente se tornando a segunda do mercado mundial de buscas.

Mas, afinal, qual então é o futuro da Internet?
Ver o mundo pelo espelho retrovisor é muito fácil, mas adiantar o futuro é muito difícil e perigoso. Entretanto, pelos instrumentos que temos hoje, parece que o futuro da Internet está nos seguintes caminhos:

  1. colaboração;
  2. conteúdos sociais;
  3. substituição dos aplicativos baseados em PC’s para o software como serviço;
  4. coexistência entre buscas universais e verticalizadas; e
  5. mobilidade.

A mobilidade, aliás, parece hoje ser a principal tendência da Internet, no momento atual, principalmente porque se calcula que em países asiáticos, africanos e, em menor escala, latino-americanos, nos próximos 10 anos, teremos maior número de acessos com smartphones que com computadores pessoais. Esta é, pois, uma das principais metas a ser perseguidas por uma eventual união entre Microsoft e Yahoo.

2 COMENTÁRIOS

  1. Rômulo, parabéns pelo artigo!

    Realmente é preciso estar a par de todos esses fatores que conectados mostram realidades totalmente diferentes.

    Ainda incrédulo em relação ao tamanho do monstro Microsoft-Yahoo que será criado, pois apesar de todos os esforços, o Google mantém com distancia sua fatia do mercado e principalmente a sua tecnologia própria que o levou a tal lugar.

    A possível Microsoft-Yahoo pode vir atrapalhar os planos do Google mas dificilmente irá ameaça-lo. Bill Gates ainda terá que desembolsar alguns milhões para aprender a ganhar dinheiro como a empresa de Mountain View.

    Abraços!

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