Seria mesmo a segunda bolha da Internet? E se ela estourasse?

Bolha da Internet 2.0Nos últimos dias, tive oportunidade de ler duas reportagens, que me chamaram muito a atenção pela gravidade do tema e por quem as assina. Resolvi então compartilha-lhas com os leitores deste blog.

A primeira foi assinada por John C. Dvorak, na Revista Info, deste mês, página 38. Ele afirma categoricamente que estamos nos caminhando para uma segunda bolha da Internet (lembram-se daquela de 1999, que faliu muita gente?). Em resumo, dá três motivos:


  • congestionamento de tráfego da Internet nos EUA;
  • extravagâncias dos novos ricos do Vale do Silício;
  • imensa onda de especulação, tanto na bolsa de valores, quanto em startups sem modelos de negócio definidos ou com modelos de negócio inviáveis do ponto de vista comercial.

A segunda reportagem, publicada ontem, e assinada por Rebecca Buckman, do respeitado The Wall Street Journal, é mais focada na enorme quantidade de sites destinados a serviços inúteis ou que reciclam idéias de sites já quebrados em 1999, mas também demonstra preocupação, não apenas do WSJ, mas o que também já começa a ocorrer com os mais experientes, entre os investidores do Vale do Silício.

O lado ruim desta história é que, se a bolha existir mesmo, um dia ela terá que estourar, muita gente perderá dinheiro e, como de costume, a economia dos países emergentes sofrerá as consequências, sem nada ter contribuído para com isso.

E parece mesmo haver uma bolha, em função do preço atual dos ativos de Internet. Apenas para citar dois exemplos recentes, ontem a Google adquiriu a Jaiku e houve quem dissesse que a negociação com a Twitter (que era nossa previsão inicial, aliás) não foi adiante em função do preço exigido pelos proprietários e o Facebook está em negociação com a Microsoft, mas afirmando valer USD$ 15 Bilhões. Ora, o Mark Zuckerberg ficou completamente louco! Todos sabemos que sites de relacionamento possuem tráfego muito irregular e o valor dado a ele pelo serviço equivale a uma vez e meia o valor de mercado da Embraer, que é a terceira maior fábrica de aviões do mundo. Os meninos do vale do silício estão perdendo a noção do valor do dinheiro, porque ele está vindo muito fácil.

Nestes momentos, o próprio mercado trata de dar um freio de arrumação, que acaba por falir um bom número de empresas pequenas, mas mantém aquelas sólidas e que possuem modelos de negócios e tecnologia estáveis.

Se a bolha estourar, a maior parte destas startups quebrarão e grande parte destes engenheiros ficarão desempregados e, às vezes, com boas patentes nas mãos, mas cujos preços ficaram aviltados (ou se tornaram reais), pela falta de financiamento fácil e, no muito das vezes, irresponsável. A infraestrutura de telecom também poderá cair de preço, como ocorreu em 1999 (em menor escala), pela diminuição da demanda. Quem ganhará com tudo isso serão as empresas bem estabelecidas. Vislumbro logo Google, Yahoo! e Microsoft, que hoje estão encontrando muita dificuldade para aumentar o seu quadro de pessoal e também para crescerem por meio de aquisições, em função da inflação dos salários e dos ativos na área da Web. Se a bolha estourar, certamente haverá uma grande consolidação do mercado.

Se a bolha estourar, virá, sem dúvida, uma recessão econômica. Para o WSJ, entretanto, em face dos agentes econômicos já terem conhecido um primeiro estouro de bolha em 1999, um segundo não seria não agudo quanto aquele, o que seria menos ruim.

Importante é se levar em conta que estes momentos de boom não são de todo ruins, pois eles incentivam a inovação e os estouros de bolhas, se causam transtornos financeiros, antes, já causaram grandes benefícios. O de 1999, como bem lembra Thomas L. Friedman em seu livro O Mundo é Plano, permitiu a globalização da economia, notadamente de uma de suas faces, a da terceirização dos serviços para os países ricos para os em desenvolvimento, o que representou um grande avanço na economia mundial. Quem sabem um novo estouro de bolha nos traga outro grande avanço econômico, que nós ainda não conseguimos hoje vislumbrar?

13 comments
  1. Pois é, essa bolha web 2.0 pode fazer um grande estardalhaço se explodir. Desde a compra do youTube vejo essa bolha inflar e chegar ao perigoso ponto de explodir. Resta saber quem vai suportar uma quebra dessa.

  2. Na outra bolha, tinha-se sempre o clássico exemplo de jovens que conseguiam investimentos milionários somente fazendo apresentação das idéias sem possuir nenhuma linha de código escrito.

    Bom, certamente o preço superestimado dos serviços e sites web é evidente, mas uma grande diferença entre esta bolha e a de anos anteriores é que os sites que estão sendo comprados/vendidos geram receita de verdade através de propaganda. Se for um serviço que caia nas graças do publico, acaba gerando tráfego e receita com propaganda. Tanto que os grandes sites e servicos web tem 90% do seu faturamento oriundos de propaganda. No caso do facebook, especula-se que gere em torno de US$ 1.5 milhões por semana. http://www.techcrunch.com/2006/04/26/facebook-goes-beyond-college-high-school-markets/
    http://en.wikipedia.org/wiki/Facebook

    Ou seja, enquanto as empresas tiverem orçamento para gastar com publicidade e propaganda (algo altamente dificil de medir o retorno) teremos essa onda superfaturada de sites na web!

  3. Fulvius,
    Talvez o Facebook fature até mais que USD$ 1.5 milhões por semana. Eu não discordo. Entretanto, devemos levar em conta o seguinte:
    a) este é o faturamento, não o lucro;
    b) a receita publicitária é dividida com a Microsoft e nós não sabemos em qual percentual; e
    c) os custos de manutenção do site no ar e de agregação de novas funcionalidades são muito grandes.
    Em sendo assim, qual seria o lucro real, se realmente ele existir? Ou eles estão contando com a fama do site para dizer que ele é muito lucrativo, tendo em vista que não se trata de uma companhia aberta?
    Com tudo isso, acho muito comparar o Facebook, em termos de valor de mercado a uma Embraer e meia.
    E veja: e não tenho nada contra o Facebook. Antes pelo contrário, acho um produto muito bom.

    Bruno,
    Vindo a quebradeira, ficarão poucos. Somente aqueles que estiverem realmente bem seguros no mercado.
    Abraços,

  4. Julia Fontelles,
    Muito obrigado pelo incentivo. Tendo gostado, por favor, indique este blog aos seus amigos.
    Abraços,

  5. Confirmo a ideologia das empresas que não sabem mais o valor das coisas. A Facebook está bombando, mas acho que 15 bilhões de dólares por uma rede de relacionaments não compensa tanto.
    O post ficou muito bom, parabéns !

  6. Afinal, nao sei o que é facebook, nao sei como entra nesse negócio, nessa era, estou vendo que o mehor é não saber de muita coisa….

    Bolhas vão existir? Claro, é o pé de um planeta andando em um ritmo frenético, onde várias bolhas, tantos locais como generalizadas, irão surgir. Inevitável. Aprendemos com as bolhas? Sim, nos mostra que o negócio não é mole não, doi pacas… mas o que fazer com elas, antes de estourar e depois de estouradas? Saiba tirar proveito, estou nesse monstro mercado a apenas 2 anos (vai fazer dois anos dia 16 de dezembro, as 16:32), e MEU DEUS!! Acompanhava com olhos de observador e curioso, e sempre num ritmo manerável, Youtube surgindo (fui um dos primeiros brasileiros a descobrir o sistema, ainda quando era um projeto, tinha uns 10.000 videos apenas), Orkut crescendo, Facebook nascendo, rec6 aflorando…. Quando isso vai acabar? Um dia, pode ser amanhã, mas depois de amanhã ja haverá outro visionário, com capital na mão, e vontade, fazendo tudo denovo….

  7. Não vejo tantos motivos para países emergentes se preocuparem tanto com a possível bolha (“web 2.0”?). A maioria das startups nasce e morre nos (problemáticos) Estados Unidos mesmo…

  8. Mesmo com a receita de 1.5 milhoes por semana seja gasta boa parte na manutenção do site, mas o facebook tem que dividir esse lucro com a microsoft? segundo as últimas noticias (http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL109863-6174,00.html) a microsoft quer comprar um pedaço dele, mas ainda nao possui nada.

    Meu raciocinio sobre o quanto ele pode estar lucrando é ver o tamanho do pessoal que o facebook emprega (900 pessoas – info.abril.com.br/aberto/infonews/092007/20092007-22.shl) e as ofertas que eles de compra que eles tem recusado (a última que eu soube é do yahoo querendo pagar 1BI)… claro, acho exagerado, isso é o PIB de muitos países, mas nos EUA, empresas desse vulto são bem mais comuns… mas concordo que nesse mercado, somente vai sobreviver que puder agregar algum valor ao usuário, ao contrário dos amiguxos e miguxas do orkut.

  9. André Belafonte,
    O problema do estouro das bolhas é que quem acaba pagando por elas são os países em desenvolvimento (Brasil, por exemplo).

    fulvius,
    O Facebook divide a renda publicitária com a Microsoft sim, porque usa o sistema de publicidade da gigante de Seatle. A Microsoft quer mesmo comprar 5% do Facebook e é por isso que foi estipulado um valor total para a empresa de USD$ 15 Bilhões, ou seja, uma vez e meia a Embraer. Você acha que vale isso? Se nos derem 900 engenheiros de software, nos conseguimos fazer um site de relacionamentos, com facilidade. Entretanto, com 900 engenheiros e 2 anos de trabalho, nós conseguiríamos fazer a terceira fabricante de aviões do mundo, com uma grande família de jatos, que são respeitados por sua confiabilidade e segurança?

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