Google luta para conservar a aquisição da DoubleClick. A Microsoft luta para matá-la.

Google Microsoft - Luvas de boxe

O título deste artigo foi retirado de um homônimo publicado ontem pela InformationWeek. O conteúdo, entretanto, não se restringe ao encontrado lá, mas se trata de um trabalho de mescla de diversas fontes, que serão devidamente citadas ao longo do texto, e também de opiniões próprias do Google Discovery.


Desde abril deste ano, quando a Google anunciou a compra da DoubleClick, que o negócio está sendo bombardeado pelas gigantes do setor, principalmente a Microsoft, que acusa formação de monopólio no mercado de anúncios online. A guerra esquentou neste mês de setembro, porque a permissão da união está prestes a ser decidida pelas autoridades reguladoras da concorrência dos EUA, União Européia e Austrália. Além disso, ontem, aconteceu uma audiência pública no Senado Norte-Americano, para discutir o tema. Além disso, as autoridades reguladoras da privacidade também estão estudando a matéria e podem interferir no negócio.

 

Este debate é mais que importante. É fundamental para a indústria. Não nos EUA, mas no mundo, porque afeta a cada uma das pessoas que acessa a internet e, como hoje falou o mago da tecnologia John Dvorak, a cada um que acessa um computador, dentro ou fora da Internet.

O primeiro movimento da indústria, depois do anúncio da união GoogleClick foi a compra do grupo aQuantive/Atlas pela Microsoft, além de, posteriormente, o anúncio da compra da AdECM e da ScreenTonic. A primeira já se encontra integrada à gigante de Seattle, com tudo aprovado pelos órgãos de defesa da privacidade e da concorrência. O que a Microsoft não fala é que este grupo faz a DoubleClick. Mais que isso, ela mesmo tentou comprar a DoubleClick, mas não ofereceu USD$ 3.1 Bilhões e, depois foi obrigada a pagar USD$ 6 Bilhões pela aQuantive. Por seu turno a Yahoo! comprou a Rigth Media.

Somente após a aprovação destas aquisições é que a Microsoft se juntou a outras empresas, para atacar a união GoogleClick e justamente depois que já estava ganhando clientes (e dinheiro) com a aQuantive, conforme ela mesmo anunciou à agência Associated Press e próximo de haver decisão quanto ao acordo da DoubleClick. Para tanto, contratou um importante escritório de lobby dos Estados Unidos, a Burson-Marsteller. Segundo do Wall Street Journal e a Revista Exame, a referida firma de lobby está enviando e-mails para as 100 maiores empresas de mídia e de Internet dos EUA, pedindo para se tornarem signatárias da petição intitulada “Por um internet mais transparente e competitiva”. Ainda segundo a Revista Exame, citando o WSJ.

O e-mail citava a compra da DoubleClick como exemplo de possível risco, pelo aumento da presença do Google no setor, e encaminhava os destinatários a uma página na internet onde podiam assinar a petição ou participar de um fórum de discussões sobre o tema. Funcionários do próprio Wall Street Journal receberam e-mails da Burson- Marsteller sugerindo que eles fizessem reportagens sobre “o quanto se conhece pouco de como o Google lida com as informações pessoais dos clientes “. Em nenhum dos contatos, porém, a empresa cita que está a serviço da Microsoft -afirma apenas que representa “um movimento amplo do setor”.

Procurada pelo WSJ, a Microsoft admite ter contratado a Burson-Marsteller e afirma não ser segredo que a empresa preocupa-se com a “concentração de mercado que pode resultar desse negócio (a aquição da DoubleClick)”. A Burson, por sua vez, afirma ter comunicado aos profissionais que receberam o e-mail o fato de a Microsoft ser parte do grupo de discussões quanto ao tema. O Google, por fim, preferiu não comentar as críticas, segundo o periódico inglês, mas afirmou que a aquisição não traz riscos à competição.

É, sem dúvida, um clima de guerra declarada, que entretanto, teve seu primeiro ataque apenas depois de as grandes concorrentes (Microsoft, Yahoo! e AOL) terem adquirido parte das concorrentes da DoubleClick, as integrarem ao seu portfólio e já estarem adquirindo novos clientes, ou seja, já estarem andando alguns passos à frente de uma futura união da Google com a DoubleClick.

Somente por isso, já podemos desconfiar que, em que pese estarem com o discurso de defesa da privacidade do consumidor e da defesa da concorrência, não estamos propriamente diante de anjinhos imaculados. Precisamos, pois, manter sempre o espírito crítico.

A Google, em seu contra-ataque, começou por defender a redução do tempo de guarda dos cookies, fonte principal de informações para os publicitários de Internet e continuou, mais recentemente, por defender regras internacionais estáveis de privacidade na grande rede, obrigando os demais buscadores a segui-la.

Afirma também que, no que tange à proteção da privacidade dos usuários, isto é o fundamento de seu negócio, porque, se o consumidor desconfiar da Google, com um único clique, passará a usar o serviço do concorrente.

Quanto a isto, temos que considerar que, não apenas no mundo da Internet, mas no mundo da eletrônica em geral, a privacidade do Direito Clássico, deixou de existir na prática. Um exemplo simples: quando eu ligo para a pizzaria da esquina, eles captam o número do telefone e, por este dado, eles sabem quais as minhas preferências de consumo naquele estabelecimento, meu endereço etc. É sabido que várias empresas vendem cadastros comerciais de consumidores e, nem por isso, vejo grandes campanhas contra a privacidade. E isso é plenamente ilegal. Uma empresa de Internet, entretanto, seja ela um buscador (Google, Microsoft ou Yahoo!), seja ela uma empresa de publicidade, como a DoubleClick ou a aQuantive/Atlas captam também todos os nossos hábitos de navegação e consumo e (não se enganem) os vendem aos publicitários e comerciantes. Entretanto, em face da facilidade como o fazem, devem fazê-lo de forma muito sutil, pelos seguintes motivos;

  1. não podem vender os dados brutos, que são seu insumo básico;
  2. se vendessem seus insumos básicos e não tratados, os publicitários não precisarão mais dos buscadores e eles quebrarão (eles são loucos?);
  3. com a imensa quantidade de dados acumulados nestas empresas, se notarmos uma quebra das regras de privacidade (dentro dos novos paradigmas da Internet, é claro), deixaremos de acreditar nelas e passaremos a usar o serviço do concorrente, o que também fará quebrar aquela empresa;
  4. não podem passar informações pessoais para empresas ou governos, razões pelas quais somente podemos confiar em empresas cujos dados estão guardados em países notoriamente democráticos. (Você acreditaria num buscador cujos dados estivessem hospedados em um país que pratica censura na Internet? Veja, não estamos falando em buscadores que se submetem à censura destes países, por que eles não podem se insurgir contra ela. Nós falamos em buscadores que hospedam os dados naqueles próprios países. Afinal, os dados dos próprios nacionais daquele país ditatorial podem estar hospedados, por exemplo, nos EUA, e submetidos à censura na entrada e na saída do país, mas não se submeteriam a processos políticos/criminais de investigação de atividades políticas ou religiosas, porque os dados pessoais e os cookies dos usuários ficariam hospedados nos servidores dos EUA e não do país ditatorial. Isto é um valor e tanto em defesa não apenas da privacidade, mas dos próprios direitos humanos e que temos que levar em conta).

Assim, se pensarmos em privacidade temos que pensar num novo (ou já velho?) paradigma, que já nos foi apresentado no momento em que a Microsoft, a IBM e a Intel popularizaram o computador pessoal, ou seja, muitos anos antes do surgimento da Internet.

Já no campo da concorrência do mercado publicitário online, a Google se defendeu por meio de seus blogs oficiais, dos processos nos órgãos reguladores dos EUA, UE e Austrália e no Senado Norte-Americano. Nesta semana, na audiência perante o Senado, o Vice-Presidente da empresa, David Drummond, prestou testemunho, no qual afirmou, em resumo:

  • o negócio de anúncios “online” é complexo, que promove a liberdade de expressão, beneficia os consumidores e também o sucesso das empresas de pequeno porte;
  • a aquisição da DoubleClick permitirá o avanço destes objetivos, protegerá a privacidade dos consumidores e permitirá maior competição, inovação e crescimento do mercado;
  • o processo de tornar o anúncio relevante é muito importante para os publicitários e anunciantes;
  • fazendo uma analogia, a DoubleClick é para a Google o que a FedEx ou a UPS são para a Amazom.com, ou seja, a Google e a DoubleClick possuem atividades comerciais complementares (não conflitantes), na qual a primeira vende anúncios e a segunda entrega aos publicitários a tecnologia necessária à entrega dos anúncios;
  • as compras de empresas, que se seguiram ao anúncio da união GoogleClick demonstra a forte concorrência existente no mercado;

Além do mais, citou a Google referências feitas por publicações importantes, que contestam as alegações de formação de truste.

Jonh C. Dvorak, escrevendo para a MarketWatch, levantou uma questão muito intrigante, que até agora, nós do Google Discovey ainda não tínhamos visto em nenhum órgão de imprensa ou blog: a presença que a Microsoft tem nos computadores pessoais no mundo permitiria a ela colocar um sistema de detecção de cookies no IE7, acoplado ao Windows e ao seu respectivo firewall, que impedisse a ratreabilidade dos hábitos do usuário de computador, tornando desnecessário que tivéssemos de nos socorrer de antispywares. Termina Dvorak por dizer que a Microsoft não faz isso somente porque não tem interesse, tendo em vista que, como a Google, também rastreia nossos passos na rede e que sua briga contra a GoogleClick não é a favor da concorrência ou do usuário, mas em seu próprio interesse, porque apenas quer ser e fazer tal e qual o que faz a Google.

Diante deste argumento, ficamos ainda mais preocupados com o problema da concorrência, porque nos demos conta de que ela não se dá apenas no campo da Internet, mas se dá primeriamente no dos sistemas operacionais e no dos navegadores. Ele não afirmou isso, mas extrapolamos para começar a acreditar que eles poderiam acoplar ao IE7 um sistema, que permitisse o repasse de cookies apenas para as empresas de publicidade online da Microsoft, usando a posição de quase monopólio, que possui neste setor. Isto fatalmente levaria à falência todos os demais buscadores, inclusive os gigantes como Google e Yahoo!. Aí sim teríamos um grave problema de concorrência e de privacidade gerada por um monopólio provocado.

Não estou dizendo que ela fará isso, mas um dia ela já usou sua posição hegemônica para quebrar a Netscape e, depois, numa segunda investida, quase quebrou a RealPlayer. Isto não é uma crítica. É história.

Em 08/09/2007, publicamos o post Ainda o problema GoogleClick , no qual tentávamos trazer à baila a maior parte dos problemas relativos à união das duas empresas. Não fomos conclusivos, entretanto, porque não tínhamos ainda as informações, que hoje apresentamos aos leitores e que somente foram apresentadas à mídia mundial na última semana.

Hoje, diante das informações que dispomos, temos um quadro muito mais claro da situação, em que pese haver uma luta intestina em todos os órgãos governamentais citados.

A nosso sentir, conforme dito em editorial pelo Los Angeles Times, o mercado de anúncios online ainda está em sua infância, logo não se pode falar em monopólio neste momento da disputa entre empresas de publicidade, porque há muito o que crescer nos próximos anos. E é verdade. Espera-se que com a introdução em massa de buscas em telefones e TVs digitais este mercado se multiplique muitas por muitas vezes em todo o mundo, de modo a considerar que ele hoje nem exista de verdade. Assim, esta briga não é para a estratégia de hoje, mas para a mudança de paradigma, que já começou, mas que se acirrará no próximo ano, com a abertura do espectro de 700Mhz para a telefonia celular nos EUA e, depois, gerando filhotes em todo o mundo.

São incomuns as intervenções dos órgãos reguladores dos EUA e suas decisões são, geralmente aceitos pelos demais países. Há na cultura daquele país uma grande veneração aos vencedores e hoje a Google está no neste rol. Ademais, no volátil campo da alta tecnologia é mais difícil ainda haver esta intervenção. Um exemplo clássico envolve exatamente a Microsoft, que mesmo tendo usado seu anteriormente conquistado poder de monopólio no mercado sistemas operacionais, quebrou a Netscape e, nem por isso, foi dividida, como se esperava à época. No caso presente, tanto a Google como a DoubleClick são líderes em seus respectivos mercados, mas possuem concorrência sólida, inclusive de um grupo econômico muito mais rico que eles, que é justamente a Microsoft. Dificilmente haverá formação de monopólio.

Por final, basta vermos as trajetórias das ações da Google, da Microsoft e da Yahoo! nos últimos 30 dias (justamente o período de maior bombardeio da união GoogleClick) as ações da Google subiram cerca de 18%, as da Microsoft, cerca de 12% e as da Yahoo!, cerca de 3%. Era de se esperar que as ações da Google estivessem despencando, mas estão subindo muito mais que as das concorrentes diretas, inclusive já tendo se recuperado das perdas havidas com a redução dos lucros esperados pelos analistas financeiros quando da apresentação dos resultados no segundo trimestre e da crise do setor imobiliário norte-americano, tendo atingido na última semana o seu maior valor de mercado (USD$ 571.79, por ação). Fazemos-lhe uma pergunta: os investidores da bolsa comprariam ações tão caras de uma empresa prestes a perder um negócio tão importante? Temos para nós que não. Eles são muito bem informados para cometerem um erro tão grande.

Por todas estas razões, nós do Google Discovery acreditamos que a união será aprovada e, provavelmente, até o primeiro trimestre de 2008.

2 Replies to “Google luta para conservar a aquisição da DoubleClick. A Microsoft luta para matá-la.

  1. Ótimo texto, além do indicado por você gostaria de fazer mais duas observações:

    No último ano o Governo, altamente democrático dos EUA solicitou os dados dos usuários dos yahoo, google e msn, a única a não entregar foi a Google.

    A MS até hoje não indicou quis informações são coletadas pelo WGA e como elas são utilizadas.

    Simplesmente ótimo o texto.

  2. Ostrock,
    Muito obrigado pelo retorno.
    Nós havíamos nos esquecido deste episódio citado por você. Sua contribuição é muito valiosa e seu incentivo somente aumenta nossa responsabilidade em escrever mais e com mais qualidade.
    Abraços,
    Rômulo

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