Ainda o problema GoogleClick

GoogleClick - LogoA Agência Reuters publicou na última quinta-feira que o órgão regulador da concorrência da Comissão Européia decidiu tomar uma atitude incomum: enviar questionários a clientes do Google antes da companhia oficialmente pedir permissão para assumir o controle de uma empresa rival. E emenda: O Google deve encaminhar até meados de setembro um pedido formal ao principal regulador da competição da União Européia sobre a compra da empresa de publicidade online DoubleClick por 3,1 bilhões de dólares, informam as fontes. Esta é apenas mais um dos inúmeros lances de um intrincado jogo de xadrez chamado GoogleClick.

Por seu turno, a Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FCC), já está avaliando a possibilidade de quebra de competitividade neste mercado de publicidade online, desde o anúncio da aquisição, que se deu em abril de 2007.


E as contestações não se deram apenas quanto à possibilidade de inibição da concorrência. Grupos de defesa do direito à privacidade também entraram na briga, o que gerou um debate quanto ao prazo de manutenção dos cookies nos bancos de dados dos grandes buscadores e também a troca de informações entre as diversas empresas de publicidade adquiridas.

Desde esta compra, o mercado de publicidade online foi sacudido, tendo a Microsoft pago USD$ 6 Bilhões pela aQuantive e a Yahoo! comprado a Right Media e a BlueLithium. As aquisições da aQuantive e da Right Media já foram aprovadas. A da BlueLithium, por ser recente, ainda não pode ser apreciada, mas nenhum sinal há que será contestada.

Por que, então, que somente a união da Google com a DoubleClick ainda é contestada? E mais: ao final, ela será permitida?

A resposta à primeira pergunta é muito fácil de ser respondida. Já a segunda, depende de profunda análise de grande dose de especulação, sendo que hoje ninguém pode adiantar qual será o resultado.

Acusa-se a futura DoubleClick de ser potencialmente nefasta à concorrência no mercado de publicidade online porque a Google já é lider mundial em publicidade por links patrocinados (AdWords e AdSense) e agora inicia publicidade dirigida em rádios, TVs e também vídeos pela rede mundial, além de também ser lider mundial em buscas pela Internet (mais de 50% da audiência). A DoubleClick, por seu turno é lider mundial em publicidade online por meio de banners. Ora, juntar estas duas forças publicitárias, pode realmente criar grandes dificuldades tanto para empresas de publicidade, como para buscadores concorrentes, como para os próprios anunciantes (estes últimos poderiam ter seus preços majorados).

A pergunta que se faz é: estas dificuldades que, parece que ocorrerão, gerarão uma situação de monopólio em favor da GoogleClick? Esta é a resposta que deverá ser dada nos próximos meses pela Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FCC) e que, espontaneamente começou também a ser buscada pelo órgão regulador da Comissão Européia.

Devemos considerar que a realidade do mercado atual não é o mesmo de quando foi anunciada a aquisição, em função do processo de consolidação por ela gerada (Microsoft/aQuantive e Yahoo!/Right Media/BlueLithium). Isto, certamente, pesará muito na decisão dos órgãos reguladores emAf favor da GoogleClick. Afinal, os concorrentes agora estão mais fortes, apesar de ainda se encontrarem em posição bastante inferior.

Entretanto, não devem os órgãos reguladores ver apenas a situação dos buscadores, mas também das demais agências de publicidade, dos anunciantes e, por final, dos consumidores. E aí a coisa começa a complicar. Afinal, será que as demais agências de publicidade online não ficarão sufocadas, agora não mais por um monopólio mas por um oligopólio formado por Google, Microsoft e Yahoo? Este possível oligopólio não permitiria a combinação de preços de anúncios, em prejuízo dos milhões de anunciantes em todo o planeta? Estas são perguntas muito difíceis, que nós, sem acesso ao conjunto probatório dos órgãos reguladores possuem, não temos como avaliar, sem fazermos especulações levianas, que somente enganariam o nosso leitor. E isto nunca foi o nosso objetivo. Preferimos dizer que não sabemos responder a este questionamento.

Por final, ainda fica um outro problema a ser discutido: a união de duas grandes empresas como Google e DoubleClick, que guardam tantas informações sobre os internautas, não seria perniciosa para o direito à privacidade? A Google prometeu reduzir o prazo de manutenção de seus cookies e foi seguida pelas demais empresas. Chegou a dizer que não vai cruzar os dados obtidos na operação de ambas. Eu duvido. Entretanto, a pergunta que eu sempre me faço é esta: há privacidade no meio eletrônico e, via de consequência, na Internet? Eu acho que não. Pelo menos a privacidade clássica do Direito. Assim, somente devemos fazer na rede aquilo que podemos fazer livremente na sociedade, porque no contato virtual seremos tão fiscalizados como no contato pessoal.

Diante deste quadro, se você me perguntar se a venda da DoubleClick será mesmo permitida e, de resto, concretizada, eu lhe direi: não sei. Entretanto, tenho um simples palpite, baseado em tudo o que tenho desde o último mês de abril: a Google é muito bem assessorada por um batalhão de advogados em todo o mundo. Dificilmente, eles cometeriam o erro de permitir a compra de uma empresa tão importante, para depois ver seu negócio recusado pelos órgãos reguladores, exceto se fosse apenas para impedir que a Microsoft o fizesse (e ela estava no páreo). Entretanto, se fosse assim, os advogados da DoubleClick seriam os primeiros a impedir o negócio com a Google e indicar a união com a Microsoft. Acredito, também, que esta fusão GoogleClick não será indolor, ou seja, talvez os órgãos reguladores exigirão a venda de alguma parte do negócio para terceiros ou a tomada de algum tipo de precaução em defesa da concorrência ou da privacidade (não cruzamento de dados de ambas as empresas, com auditoria externa; redução maior do prazo de manutenção dos cookies ou de seus dados internos; manutenção de operações separadas etc).

A evolução deste negócio é interessante do ponto de vista noticioso e muito importante do ponto de vista de nossos direitos de internautas. Vale à pena acompanharmos.

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