Os Resultados Trimestrais e o Futuro da Google

No dia 19/07/2007, a Google apresentou aos investidores da Nasdaq os seus resultados do segundo trimestre e foi um verdadeiro desastre. Suas ações, que chegaram a valer US$ 558,58, dois dias antes, estão hoje valendo US$ 509,76. E já havia analistas projetando as ações com valor de US$ 700,00 para dezembro. Desde então, venho desejoso de escrever sobre o assunto, mas estive impossibilitado. Não é tarde.

Nando Kanarski, do Undergoogle, em excelente post, mostra que a receita publicitária da Google continuou a aumentar consistentemente, mas a necessidade de aumento de custos operacionais e de crescimento por meio de aquisições, que tanto encantam os Googlemaníacos corroeram os lucros, fazendo-os ser menores que os do primeiro trimestre. Isto provocou um verdadeiro terremoto na bolsa tecnológica americana. Afinal, pela primeira vez em sua história, a Google apresenta resultados líquidos menores que os do mês anterior.


A pergunta que não quer se calar é a seguinte: a Google chegou ao seu período de maturação?

É esta resposta que tentaremos encontrar.

No mercado de buscas dos Estados Unidos, o coração de seu negócio, porque sustentáculo quase que total de sua verba publicitária, parece que a Google encontrou este ponto de maturidade, na faixa de 50% do mercado. Em verdade, em junho ocorreu um fenômeno incomum: uma pequena redução na participação da Google e uma elevação da participação de Microsoft. Se esta tendência se mantiver por mais 5 ou 6 meses, teremos a certeza de que a possibilidade de crescimento orgânico estará inviabilizada. Devemos nos lembrar que o crescimento por meio de aquisições nos mercados, onde ela possui supremacia comercial, se constitui prática de truste e, portanto, proibida.

Não bastasse isso, ela não é forte em vários mercados como a Coréia, por exemplo. Na China, o mercado de Internet, que mais cresce no mundo, leva uma verdadeira surra da Baidu. Neste mercado, aliás, a Google tente crescer organicamente, mas poderia até, quem sabe, comprar a sua maior concorrente, enquantanto, pode ser adquirida. Afinal, suas ações não param de subir e a empresa vale hoje US$ 6,2 Bilhões, mas vai valer muito mais ao longo do tempo.

E não se esqueçam que o mercado de buscas é muito volátil. Afinal, alguém se lembra da Alta Vista, da Infoseek, da Excite, ou da Lycos? Não? Pois já foram os líderes de busca na Internet. E já estão procurando substitutos para a Google.

Ela precisa encontrar novos negócios, sob pena de vir, de um momento para o outro, a perder seu valor de mercado.

Então, o que deve ela fazer para evitar a mesma sina?

O caminho parece ser o de se fortalecer em serviços correlatos aos de buscas, como mapas, e afins e também em aplicativos para negócios, tais como editores de textos, planilhas de cálculos, softwares de apresentações, bancos de dados para grandes e pequenos negócios, e-mail, agenda, CRM, ERP, ECM/GED e outros. Em termos de editores, planilhas, e-mail, agendas e alguns outros produtos já lançados, a Google possui um bom portfólio, mas que ainda se recente, de um lado, de todas as funcionalidades dos produtos Microsoft (principalmente do Word e do Excel) e, de outro, a não existência de uma versão off-line dos produtos, o que gera alguma desconfiança em muitos usuários. Ainda faltam também alguns produtos a serem lançados, mas o futuro promete muito.

Entretanto, isto não bastará à consolidação da Google como grande prestadora de serviços de Internet.

Ela terá necessariamente que se fixar no mercado de prestação remota de serviços de relacionamento com os clientes (CRM), administração avançada de negócios (ERP) e gerenciamento eletrônico de conteúdos e documentos (ECM/GED). E claramente já faz um pouco disso ao gerenciar e-mails e documentos eletrônicos gerados por particulares, escolas e empresas via seus produtos, além de ter feito um acordo com a SalesForce, para integrar seus produtos ao excelente CRM dela, o que, diga-se, decepcionou os investidores, que esperavam uma incorporação daquela empresa. Acho que muitos do mercado estavam pensando o mesmo: que o caminho era elevar o número de serviços para empresas de porte pequeno e médio, na idéia da exploração da cauda longa. As grandes viriam com o tempo. A Google terá que ser muito agressiva neste mercado. Não se sabe quando isto começará a acontecer, mas acredito que é uma necessidade.

Eu gostaria muito de ouvir a sua opinião, leitor. Por favor, comente. Discorde. Esta troca de idéias é que faz a beleza da Internet e que nos motiva a escrever. Talvez eu não possa responder de imediato, nos próximos dias, mas prometo fazê-lo assim que possível.

4 Replies to “Os Resultados Trimestrais e o Futuro da Google

  1. Parabéns pelo post!

    Acredito que o Google deva estar chegando a sua maturidade de crescimento, ou seja, a empresa deve entrar numa estabilidade de ganhos, com crescimento, mas um pouco mais lento.

  2. Não podemos comparar a internet de hoje com a da época do altavista, ou do lycos.

    O “share of mind” da google como ferramenta de busca é gigante. Não imagino que, sem alguma grande burrice da Google isso irá mudar.
    E isso de alguém que era fã número 1 da altavista, desde a época em que digitávamos http://www.altavista.digital.com

    Mas deixei de ser fã: Muitos anúncios, falta de foco em procura, a digital foi vendida para a compaq, um lag gigante para processar, e as páginas de resposta ficaram pesadas.
    Naquela época, site de busca não dava dinheiro. Tentei até usar o cadê, nacional, com um outro foco. Durou alguns minutos.

    A Google, com seu aproach simples, e uma página inicial em branco, mostrou que as páginas podiam voltar a ser rápidas, sem aquele clutter dos concorrentes.

    Hoje eu já não vejo possibilidade de outra companhia nesse mercado.
    Com a maturação, das 100 empresas que oferecem esse serviço só irão sobrar 3: A Google, algum segundo colocado confortável, e um terceiro sempre brigando pela segunda colocação sem sucesso.

    O mercado de ações é sempre importante, mas na minha opinião, entre 500 e 450 ou 700 tanto faz, pois é muito acima do que deveria ser de qualquer jeito.
    abraço,
    Gabriel
    http://www.donttalkaboutlife.com

  3. Cesar Mantovani e Gabriel,
    Muito obrigado pelos comentários.
    Concordo plenamente com o Cesar Mantovani. Parece muito certo de que em termos de participação no mercado de buscas a Google atingiu a sua maturidade. Não tenho dúvidas de que este mercado ainda poderá crescer muito em termos absolutos, mas a participação relativa aparentemente não se modificará muito nos próximos meses. Daí a necessidade de procura de outras unidades de negócios, sobretudo CRM, ERP e GED, que serão os grandes serviços de Internet dos próximos 5 anos e na qual Google, Yahoo e Microsoft ainda não estão com os pés fincados, exceto a Microsoft no mercado de CRM/ERP, mas fora da Internet.
    Gabriel,
    Concordo também contigo, quando diz que o mercado de Internet de hoje é diferente daquele quando surgiram Alta Vista e Lycos. A sua análise, quanto à história destas velhas empresa de busca é perfeita e eu seria apenas redundante, se falasse mais alguma coisa. O mesmo no que tange à estratégia de ataque comercial da Google. Também acredito que ficarão apenas 3 grandes empresas de buscas e serão a Google, em primeiro lugar, a Yahoo!, em segundo (por seu porte e pela qualidade de suas buscas) e a Microsoft (por seu porte e, quem sabe, pela melhora de suas buscas). As outras morrerão ou terão participação marginal.
    Entretanto, esta é a visão que temos hoje. E foi aí que eu foquei o meu “post”. Ninguém está parado e, da mesma forma como surgiu a revolucionária fórmula da Google, poderia surgir uma revolucionária fórmula de outra empresa desconhecida. Todos nós sabemos que a Google está focada nas buscas e na publicidade, inclusive alocando cerca de 50% de sua força de trabalho e fabulosas somas de dinheiro em infra-estrutura neste segmento, para evitar perder a dianteira, mas nunca se sabe.
    Por final, quero deixar claro que eu não propriamente discordo de você. Antes, concordo com quase 100% de seus argumentos. Apenas temo que a concentração em um único foco, qual seja, nas buscas, possa, no futuro, ser o algoz da Google. Assim, acredito que ela deveria logo partir para a conquista de outros seguimentos, para evitar os erros de outras empresas, tais como Yahoo! e Altavista, que acreditaram nos portais, quando deveriam ter acreditado nas buscas. A história mostra que na Internet, focar em apenas um segmento, pode causar a morte prematura das empresas.
    Abraços a todos.

  4. Não sei, pessoal. Tenho sentido nos últimos tempos um certo medo “pelo” e “do” Google.

    Do Google por termos tantas informações, muitas vezes pessoais, valiosas, confidenciais, etc, nas mãos deles, uma vez que armazenamos muito de nossa vida virtual (e conseqüentemente, não só isso), através e no Google.

    Pelo Google, pois me parece que a companhia entrou em uma onda de aquisições sem precedentes, e parece meio que desenfreada. Particularmente, nunca vi algo assim.

    E mesmo a Microsoft, com todos os problema que já enfrentou, o tal do anti-truste, acusações de monopólio, etc, não correu os riscos que, creio eu, o Google pode, talvez, vir a correr.

    Onde eles vão parar? Daqui a pouco, a “internet será o Google”. Tem aquele tal de “Google Accelerator” (não me recordo se este é mesmo o nome), onde todo o tráfego passa pelos servidores da empresa, prometendo velocidade e estabilidade ao usuário. Mas sob que preço? Será que vale a pena para nós, usuários?

    Fico preocupado, apesar de adorar o Google, e utilizar muitas de suas ferramentas, e não abandoná-las, pelo menos por enquanto, de forma alguma.

    Mas que o Google está chegando em sua maturidade, isto está. E será que vai continuar crescendo, a partir daí?

    Abraços a todos! E parabéns pelo blog!

Comente!